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Quando a morte pede passagem! Homenagem ao meu pai Lino Hammes (In Memorian)

Quando a morte pede passagem! Homenagem ao meu pai Lino Hammes (In Memorian)

 

     Ouço vozes que dão vida ao lugar que agora está silencioso. 

     Neste momento estou sentada sob a minha infância. Encontro-me recostada em uma espreguiçadeira tendo como companhia uma frondosa árvore que avança sua sombra em uma extensão inacreditável.

     Eu, o vento, a sombra e minhas lembranças. Lembro de tudo e já não tenho mais nada, a não ser minhas memórias.

     Meus pais moravam sozinhos em um sítio e lá se ocupavam dos afazeres diários. Nós, filhos, os visitávamos frequentemente. Eles mantinham a nossa infância viva, pois sempre nos recebiam com amor. Bastava sairmos do carro que eles, já não tão jovens, abriam os braços para embalar filhos e netos num longo e afetuoso abraço. O amor se expandia e ali uma família construía sua história. A natureza era a companhia preferida deles. Passarinhos, corujas, sapos, árvores balançando folhas prá lá e prá cá, flores, grama “verdinha”, nascer e pôr do sol, lua e estrelas e, de vez em quando, a visita dos filhos. Nós, os quatro filhos, sempre amamos, respeitamos e admiramos o que vinha deles.

     Bem, como sabemos nada é para sempre. Os encontros que aqui, neste sítio, realizávamos, não mais serão os mesmos. Ontem, aqui voltei e não vi os braços do meu pai abrindo-se para mim. O abraço acolhedor e necessário para ambos, não aconteceu. Meu pai foi embora para o plano espiritual há dois anos. Mantemos a casa, mas não contamos mais com a presença física, do esteio e do alicerce dele.

     A mãe está conosco. Sua história de amor foi interrompida abruptamente com uma frase, dita pelo pai, que jamais será esquecida:

     - Mãe, (assim que ele chamava a esposa) eu acho que eu preciso morrer!

     A mãe gritou, mas o pai não ouviu mais. Ela presenciou a finitude do amor em corpos físicos. A vida separou um amor de mais de cinquenta anos de convivência harmônica. Bastou um suspiro para que o pai, sogro, esposo e avô fosse embora. O que fortalece minha mãe nestes dias de luto é a certeza de que o amor imenso que nutriam um pelo outro, os unirá cedo ou tarde. Afinal, 55 anos de casado não se desfaz assim.

     Um amor não acaba só por que o casal perde o companheiro para a morte física. A necessidade de que um dia partiremos é a única certeza que temos, não é mesmo?

     Ele foi e nós ficamos. A casa é o lugar onde podemos amenizar a saudade e agradavelmente nos sentimos perto dele. Enquanto escrevo este artigo, estou sentada sobre o local da recepção e do abraço.

     Minha irmã e eu saímos de casa cedo, pois queríamos mais do que uma sombra acolhedora, e toda vez que sentíamos saudades de casa, imitávamos a fala de Scarlett O´Hara no filme “E o Vento Levou”. O filme narra a trajetória dela. Revela uma mulher rebelde e decidida que sobrevive à Guerra Civil americana e luta para defender sua terra (Tara).

     Quando fragilizada pela dor da guerra ela dizia:

     - Preciso voltar para Tara!

     Ultimamente, toda nossa família sente uma necessidade pulsante de voltar a nossa “Tara”. Só que, ao fazermos a viagem até aqui, não encontramos mais o nosso eterno Pai. Porém encontramos setenta e oito roseiras, plantadas por ele, um mês antes do seu falecimento. Sua marca ficou registrada em flores. Inconscientemente ele, plantou a quantidade relativa à sua idade. Penso que ele desejava deixar a nossa “Tara” mais colorida e cheirosa.

     Aqui também encontramos o que ele amava tanto: o sossego. Horas de silêncio e contemplação misturadas a uma agitada rotina de afazeres. Sentia-se vivo no lugar que chamava de seu.

     Sentada sobre a minha infância ouço a voz alegre de meu pai. Enxergo a força do olhar de minha mãe. Sinto a felicidade dos meus irmãos preparando tudo para a chegada da noite. A família toda se sentava ao redor do fogo e lá formávamos uma fortaleza inabalável. Meus pais acolhiam as dificuldades do dia e ofereciam preciosos conselhos. Nós, crianças, pulávamos no colo deles para receber o que de mais intenso eles podiam oferecer: o calor do amor.

     Éramos seis, hoje somos cinco. Em algum lugar lá no céu consta o registro referente à maneira como o pai de família Lino Hammes pautou sua vida terrena. Quem quiser pesquisar encontrará subsídios importantes sobre o que é viver com caráter, honestidade, paciência, amorosidade, força no trabalho, perseverança, coragem e muito mais.

     Pai, sua passagem pela terra foi como uma brisa suave que amansou corações e serviu de exemplo para quem precisasse. Uma pessoa que ensinou usando como base o amor, agora tem o direito de descansar em paz. Nós devemos continuar conquistando o mundo e, quando necessitarmos, convidaremos a mãe Romana Verônica Hammes para passarmos alguns dias em “Tara”.

     O luxo de um hotel ou as paisagens imponentes ao redor do mundo, não se assemelham ao frescor, sabor, quietude e aconchego que encontramos no sítio que meus pais escolheram para escrever sua história. O luxo, neste caso, está no AMOR!

     Pai, descanse em paz, que seguiremos em paz também!

Irlei Hammes Wiesel


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